segunda-feira, 5 de março de 2012

Crônica de domingo


     “Dia de luz, festa de sol e o barquinho a deslizar no macio azul do mar...”* Hoje não havia mar e nem barquinho velejando ao longe, mas a manhã trouxe um céu azul e um sol brilhantes. Fui despertada por pássaros e meu primeiro café da manhã em minha nova casa tinha uma xícara fumegante de café com leite, pão crocante e quentinho com manteiga, frutas e um queijo tão macio que derretia na boca. Acompanhada de boa música e entre um quitute e outro me deixei levar em devaneios do meu futuro.
     Depois de um tempo saboreando meu café da manhã fui às compras. Primeira parada feira livre, um dos lugares mais interessantes para se começar o dia. Tendas coloridas, pessoas num vai e vem constantes, disputa entre vendedores para atrair a clientela. Algumas pessoas são clientes tão antigos que já se criou uma relação quase que familiar entre eles. As senhorinhas estão lá escolhendo os melhores produtos para o almoço do domingo, perguntam se tal produto foi colhido no dia, pechincham e entre um sorriso e outro, uma compra e outra os carrinhos e as sacolas, ecologicamente corretas, vão enchendo.
     Escolher cada produto, sentir o cheiro doce ou cítrico das frutas, a crocância das folhas que foram colhidas bem antes do sol nascer, tudo fresco e delicioso. Conversar com desconhecidos, ganhar uma receita de um prato que nem sei se algum dia terei a competência de cozê-lo.  Tudo isso é para mim sempre uma oportunidade de aprender e crescer. Passar um tempo ali é um privilégio para quem tem sensibilidade suficiente de descobrir na simplicidade a beleza de cada indivíduo.
     Saindo da feira fui ao supermercado, geladeira e dispensa totalmente vazias. Como estou voltando para meu antigo endereço, acabei reencontrando velhos conhecidos e colocando o papo em dia. Uma compra que não deveria durar mais que 20 minutos, acabou se estendendo um pouco mais, mas foi muito bom.
     De volta para casa, hora de colocar tudo no lugar e aproveitar meu momento de inspiração para preparar um belo almoço. Primeiro passo abrir uma garrafa de vinho, porque é preciso estar muito bem acompanhada para produzir bons pratos. Decidi por coxa e contra coxa de frango temperadas com sal, pimenta, alho, azeite, limão, tomilho e alecrim e um pouco de manteiga para dar brilho à carne, batata souté, brócolis refogado no azeite de alho e salada de abobrinha menina e jiló (que eu ADORO). Enquanto preparava meu almoço recebi a visita de minha irmã e de alguns tios, outra garrafa de vinho foi necessária e enquanto o almoço estava sendo preparado fui apresentar meu novo lar. Como o espaço é muito pequeno não demorou muito e já estávamos sentados à mesa da varanda (que é maior que a casa) batendo papo. Eu adoro ouvir histórias dos meus parentes que já se foram, por mim passaria horas ouvindo as histórias e descobrindo um pouco mais de mim.
     Claro que meu almoço foi um sucesso (rs...) e como não poderia faltar à sobremesa servi sorvete de pistache com calda de morango. Entre uma lembrança e outra as horas foram se passando e acabei me dando conta do quanto eu sentia falta disso. Passei tanto tempo sozinha que já havia me esquecido de como é bom estar com muita gente.
    Um filme (Sociedade dos poetas mortos, que já vi não sei quantas vezes) encerrou meu dia e uma fala da personagem vivida por Robin Williams completou meu momento de inspiração “Não lemos e nem escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos seres humanos. A raça humana está repleta de paixão... poesia, beleza, romance, amor é para isso que vivemos...”
     Não sei como viver diferente, minhas emoções, minhas paixões são o sustento da minha alma. Alma essa que se recusa a ser normal, que chora, ri, ama e não desisti mesmo que leve um tombo aqui outro ali. E o meu barquinho vai navegando nas águas ora calma, ora turbulentas da vida.    


* trecho da música “O Barquinho” de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli

sexta-feira, 2 de março de 2012


      Depois de horas embalando coisas, jogando outras fora, dispensando algum tempo nas boas recordações trazidas por algum objeto, chego à conclusão de que é incrível como a vida da gente cabe em caixas.
      Devo dizer que levei um bom tempo até aceitar essa realidade. Juntei uma série de desculpas para postergar essa mudança. Ao final percebi que cedo ou tarde ela deveria acontecer e quanto mais tempo eu levasse mais eu sofreria.
      Acordei de um salto num dia desses e joguei a dúvida e a incerteza fora. Tem um caminho a minha frente, gritando que preciso seguir enfrente, é só dar o primeiro passo... Mas não é fácil, são muitas lembranças.
      Nessa casa, que hoje deixo, vivi momentos maravilhosos, vivi momentos tristes também. A solidão foi uma de minhas melhores companheiras e devo dizer que ela foi responsável por algumas realizações também. No silêncio ou no barulho de todos os equipamentos ligados ao mesmo tempo, descobri a maravilha de se estar com quem à gente gosta, nesse caso eu. Tudo bem pode ser meio narcisismo, mas sempre gostei da minha companhia.
      Nas tardes, quando ficava absorta, apenas contemplando o verde que me envolvia e o som maravilhoso de pássaros se preparando para dormir conseguia fazer longas viagens, escrevia no tempo o que mais tarde viria se materializar em palavras no papel. Quantas vezes me deixei adormecer ao sol, pelo simples prazer de sentir seu calor e ser acariciada pela brisa que tocava minha pele e me trazia sempre a sensação de liberdade, o cheiro adocicado da grama recém-cortada, os sons do vento abraçando os galhos das árvores.
      Viver por tanto tempo rodeada de verde em seus diversos matizes sempre me trouxe muita paz. Tomar o café da manhã observando o sol nascer e iluminar tudo em volta. Ficar ali à mesa contemplando o dia e criando e imaginando tantas coisas. Quantas vezes me peguei  falando sozinha entre uma xícara de café e outra. Mas é chegada a hora de deixar para trás esse momento da minha história. Esse capítulo foi muito bem escrito e é preciso dar vazão aos que virão. Com certeza o conteúdo dentro das caixas não chega nem perto do que se acumulou em minhas memórias. As lágrimas não faltarão e vão molhar o meu rosto quando olhar para trás e vir os cômodos vazios, mas vou fechar a porta e seguir meu novo caminho.
      Retratei em palavras o que essa casa sempre foi para mim,

A casa branca

A casa branca que brota
Com sua força e energia
Quadrada em sua forma
Ilhada por tantas árvores
Parece arrogante para quem olha
Mas ao se entrar nela
Descobre no cheiro
E na delicadeza dos móveis
Uma suavidade que encanta
Quem nela entra
Sente-se acolhido, aconchegado
Adormece em seus braços
Com a segurança de se estar
Completamente abrigado
A casa branca da rua
De números confusos
Tem em cada canto um suspiro
E ás vezes um sussurro
São as revelações de tempos idos
De saudades jamais esquecidas
De momentos intensamente vividos
Essa casa guarda meus segredos
Essa casa por muito tempo
Alimentou meus sonhos e desejos
A casa branca se vai enquanto matéria
E se materializa enquanto lembrança...

sábado, 25 de fevereiro de 2012


Mundo Virtual

Um sinal baixo e pulsante
É o aviso de que estás prestes
A entrar no mundo da fantasia
Um chamado...
E as portas virtuais se abrem
E lhe dão passagem
Não precisa de cinto
Embora perigosa
A viagem pode ser confortável e deliciosa
Não precisa de malas
Tudo do que precisar
Será materializado com um simples toque
Ou apenas um pensamento
Nessa viagem você não tem passado
Você não tem presente
E não se iluda
Você não terá futuro
Tudo pertence ao imaginário
Nesse espaço de tempo
Que podem durar horas
Ou meros segundos
Você se permitirá sonhar
Fantasiar... Flutuar na imaginação
Tocará pequenas nuvens
E se quiser poderá leva-las à boca
E delas se alimentar
No mundo virtual
Você se despe das vestes duras
Da realidade segura
E se transveste de leveza adocicada
Na nudez livre de preconceitos
E pudores desnecessários
Onde o que se deseja é
Invadir...
Penetrar...
Fundir...


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Nessa vastidão de imensas dores e angústias
A revelação de um corpo alquebrado
Pelas lembranças de um passado
Cheio de confissões e segredos
Nas ruas de pedras da memória,
Empoeiradas pelo tempo,
Vejo-me gasta como uma peça rota
De roupa que não quer mais ser usada
Mas que se acomodou ao corpo
E dele não quer se desfazer
As algemas do medo insistem
Em manter-se atadas
Limitando meus desejos,
Bloqueando minha ânsia pelo fazer
E a minha enorme necessidade de viver.
Acordei com muita disposição
Abri as gavetas, revirei as caixas
Dos armários fui retirando tudo
Não sobrou nada guardado ou escondido
Separei o que me agradava
Peças comprometidas pelo tempo
Não vacilei, mandei embora
Joguei tudo fora...
Amontoados de coisas velhas e sem uso
Vi crescer em determinados cantos
Em meio a tudo isso me vi
Nas cores escuras de algumas roupas
A silueta de alguém que passou um bom tempo nas sombras
As solas gastas dos sapatos
Lembraram-me que muito caminhei
E entre um obstáculo e outro não desisti
Sacos cheios de histórias
Caixas repletas de sentimentos e lembranças
No quarto cheio de memórias
Um pequeno objeto e sua luz intermitente
E nas suas pequenas interrupções
A necessidade de recomeçar sempre
Construir, se permitir, evoluir
Esse objeto de tantas formas
Chama-se vida... A minha vida.




quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Hoje me vesti para você
O tecido leve lembrava suas mãos
Descendo lentamente e cobrindo partes da pele
Macia... Desejosa...
O perfume borrifado no ar
Caía como pétalas a perfumar e a acariciar
Os pés receberam o toque do couro
Forte e ao mesmo tempo confortável
A massa de cabelos macia e perfumada
Emolduravam a delicadeza do rosto
Nos lábios o brilho despertando o desejo
E ao final, diante do espelho,
A boca semiaberta lançava lhe um beijo.
Não foram as palavras ditas ou manuscritas
Não foram as atitudes ou a ausência delas
Foi apenas um sorriso...
Foi apenas um sorriso...
Um belo sorriso.

E aí vem você, todo dengoso e cheiroso Roça meu pescoço, você é habilidoso Sabe sussurrar em meus ouvidos Palavras que fazem meus pêlos e...