quarta-feira, 25 de julho de 2012

Serpente


Estou no ninho da serpente
E não vislumbrá-la é mais assustador
Que estar diante de sua enigmática presença.
Sabê-la tão perto causa certo desconforto
Pareço sentir seu cheiro
O ar está impregnado de seu odor
Por muito tempo fui hipnotizada
Pelos seus olhos, suas doces palavras
Seu hálito gélido confundia meus sentidos
Busco uma saída e a encontro
A serpente agora fica para trás
Apenas sua casca deixada pelo caminho
Consigo aqui de cima enxergar
Essa serpente troca de pele,
Mas sua essência jamais mudará.

segunda-feira, 16 de julho de 2012


Frio, vento e fome
E a solidão que consome
Nas noites geladas de inverno
Escondidos debaixo de papelões
Dormem em névoas de miséria
Amontoados de pele e ossos
Alimentados apenas de lamentações
Esquecidos do tempo, dos anos
Seres que já nem se julgam mais humanos
Marginalizados e descriminados
São invisíveis à sociedade hipócrita
Que rouba sua dignidade e nega-lhe o pão
São homens, mulheres e crianças
Jogados no mundo sem proteção
Misturam-se ao lixo e a imundice
Daqueles que se negam a olhar para o chão
Gritam palavras de ordem, apresentam-se
Como bons moços e moças
Mas fazem cara de nojo para toda essa podridão
As feridas abertas da miséria humana
Contaminadas por preconceitos e dissimulação
Não há dignidade quando não se tem pão
Num país em que nem todos
Sabem que têm direito a um nome 
São pobres miseráveis que ainda buscam 
Em suas velhas panelas vazias
Algum alimento que mate sua fome
E choram o choro dos que não tem voz
Com olhos empoeirados e esfarrapados
Vão se largando no mundo
E morrendo todos os dias
Acostumados à invisibilidade
Insignificância e mediocridade.



Bela vê a vida pela fresta do portão.
Tudo que vem aos teus olhos
Vem pela metade, com imagens cortadas,
Mas não pense que Bela sofre de solidão
Ao contrário, ela sorri para os pés que transitam pela calçada.
Às vezes, Bela dança com uma desenvoltura invejável
Quando o sol torna-se desagradável, Bela nem dá bola
Dá uma olhada de desdém, vira-se e se recosta com ar de bela dama.
Com olhos lânguidos e corpo relaxado põe-se a dormir
Ao entardecer Bela se levanta, se recompõe e dirige-se ao portão,
Ela sabe que haverá passos rápidos num vai e vem frenético
De carros, ônibus, bicicletas e os seus, preferidos, pés.
Eles são de variadas cores, alguns altos, outros baixos
Alguns correm, outros caminham e outros param...
Bela não liga para os rostos, não se importa com eles,
Bela é fascinada com essas formas estranhas.
Alguns amigos param, olham no seu único olho,
Resmungam alguma coisa e vão embora.
Bela não é tímida e é muito educada
Deitada, olhando pela fresta do portão,
Bela compõe seu mundo nas fantasias que povoam
E alimentam seu canino coração.
Bela vê a vida pela fresta do portão... 

Morte


Na eminência da morte os olhos perdem o brilho,
E o espírito parece se despedir desse mundo.
Existe uma tristeza que não sei de onde vem,
Talvez a despedida do plano que lhe abrigou,
Dos lugares e das pessoas que lhe abraçou.
Não sei, é impossível analisar, interpretar
Existe um distanciamento do tempo 
Nada mais parece fazer sentido 
Ao ouvir “já vivi muito, meu tempo se esvai”
Não existe mágoa, amargura ou frustração
Nessa frase simples, mas tão cheia de emoção,
Apenas a melancolia e a certeza do partir.
A morte que não vem no corpo de Brad Pitt
Chega silenciosa e a quem merece, vem carinhosa.
A lágrima que lava o rosto enrugado é de saudade,
Ou da certeza de tão desejados reencontros.
A morte não é essa dama de vestes negras
E de foice na mão, ela é leve e fluida.
A morte não evita a dor, mas desperta amor,
Ela apenas modifica as muitas fases da vida.
Quero que a minha passagem venha 
Numa fria e ensolarada tarde de inverno
No azulado frio da despedida
Assim terei a certeza de que o espírito é eterno
Na beleza do sol que se põe
Quero adormecer nos braços do horizonte
E despertar livre das vestes carnais
No caminho para aprender e talvez um dia renascer.

quarta-feira, 11 de julho de 2012


O que dizer nessas tardes frias de inverno
Que transforma meus dias curtos
Em noites longas e de agonia ou, 
Em alguns momentos, alegria.
Tardes largadas debaixo do cobertor que aquece o corpo,
Mas não aquece o coração que, acabrunhado,
Se vê desanimado diante do filme de amor.
Essas comédias que não me fazem dar risada,
Que na verdade não me transmitem nada.
E vou esgueirando-me do tempo na
Tentativa infeliz de fugir de mim mesma
Como se eu pudesse sabotar sentimentos
Refugiados nessas águas turvas do viver.
Se nada tenho a dizer posso pelo menos querer:
Querer a primavera rejuvenescida e florida
Com brisas leves e doces perfumando o corpo;
Querer as noites de lua cheia abraçada a nudez
De meus desejos insaciados.
Mas enquanto a primavera não vem
Aqueço-me de tuas lembranças
Revistando as memórias e apalpando
A carne que sente as vibrações ao simples toque,
E que vai se aconchegando na maciez do algodão
E adormecendo nos braços ternos da solidão.


terça-feira, 10 de julho de 2012


Devolve meu coração?
Ele lhe foi dado de presente
E como o embrulho nunca foi desfeito
Pedí-lo de volta nem me deixa sem jeito 


Devolve meu coração?
Preciso dele para me apaixonar de novo
E sentir seu calor invadir todo meu corpo


Devolve meu coração?
Ele não lhe fará a menor falta
Pois o presente que ora foi dado
Nunca recebeu qualquer coisa de volta.


Devolve meu coração?
Não sei o que dói mais
Se os quilometros intermináveis
Mas passiveis de se serem percorridos ou
A indiferença manifestada como espinho
Que cravada no coração
Estraçalha a alma...


E aí vem você, todo dengoso e cheiroso Roça meu pescoço, você é habilidoso Sabe sussurrar em meus ouvidos Palavras que fazem meus pêlos e...