sexta-feira, 23 de agosto de 2013

ALZHEIMER: a dor do esquecimento

                                  (Poema dedicado a minha mãe)

Lembro-me perfeitamente dos tempos de infância
De correr pelas campinas, apartar as vacas
Brincar com meus irmãos, ir aos bailes para namorar
O tempo passado me é o mais presente
Esse presente que são apenas borrões
Sei que fico agressiva, irritada
Repito as mesmas perguntas o tempo todo
Os que estão a minha volta também se irritam
Não sei o que acontece comigo
Esforço-me para lembrar, mas não consigo
Percebo minha fala estranha
Não consigo formular frases, nem as mais banais
Por isso acho melhor ficar calada
Esqueço o chuveiro ligado, mas nem sabia
Que tinha ido ao banheiro
Alguns rostos à minha frente não consigo distinguir
Acho que são meus, mas não me lembro
Dizem que são meus filhos, meu marido
Mas eu não os acho na minha memória
São estranhos que brigam comigo
Meu andar já não é tão fácil como nos tempos de juventude
Será que caí e me machuquei?
Não me lembro
Vejo os dias nascerem e partirem
E vou criando um mundo só meu
Pareço uma estranha diante de tantos estranhos
Só queria que não brigassem comigo
Fico sozinha querendo entender  as coisas
E me disperso com tanta facilidade
Será que estou doente e não me dizem nada
Ontem tentei comer um pãozinho sozinha
Mas as minhas mãos me traíram
Agora elas tremem e evito segurar as coisas
Porque esses estranhos brigam comigo
Passo horas olhando o céu, existe alguém lá
Mas não consigo me lembrar
Hoje eu ganhei um abraço, fiquei tão feliz
Mas não sei quem é a moça
Ela diz que é minha filha
Mas eu não sei se tenho filhos
Fiquei com pena dela, coitada
Ela acha que eu sou a mãe
Vejo-me tão enrugada, acho que estou velha
Mas nem sei que idade tenho
Será que já cheguei aos quarenta?
Perguntei  isso outro dia e um rapaz
Que eu nem conheço me chamou de vó
Achei tão estranho...

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O beijo - Gustav Klimt

Beijo a sua boca e sinto gosto de saudade
Beijo macio e suculento
Como cereja madura
Que explode seus sabores
Nesse encontro de lábios e línguas
Beijo bom...
Beijo que deixa saudade
Mesmo antes que esse toque se acabe...

sábado, 17 de agosto de 2013

Ela está ali novamente, parada
Cabelos soltos e ao vento
Tez serena e olhar distante
Ei menina para onde olha?
Que horizonte é esse que apenas
Seus olhos enxerga?
Que caminhos percorre
E por que não deixa pegadas?
De onde vens e por que não me conta tua história?
Ei menina por que não me olha?
Me deixa ver essa luz que tanto brilha
Ei menina...
E ela apenas caminha, leve e silenciosa
Se distancia ao meu toque
E ali eu fico, parada
Apenas vendo-a partir
No seu silêncio que fala mais que palavras
Será que um dia realmente a vi?
E agora folheando minha memória
Percebo que sempre a conheci
Mas em algum lugar no tempo a perdi
Desembrulho o passado
Ansiosa para encontrar o presente
Aninhados em papel de seda
Vejo dois rostos que se fundem
Eu era a menina, há muito por mim esquecida
E entre exclamações e perguntas
Vislumbro o nada e apenas um sentimento
Em que momento eu a afastei de mim?

sábado, 10 de agosto de 2013


Foto: Mauro Marques


O espelho reflete os traços de um rosto
Que aos poucos vai desenhando-se
Olhar miúdo,  brilhante, triste?!
A pele lisa, cremosa como polpa de pêssego fresco
Nos lábios um leve sorriso, tímido, impreciso
O estalar do tempo pincela a carne
O olhar miúdo,  novos traços,  marcas
O sorriso ora malicioso, ora carinhoso
É mistério nessa boca que não fala
Tal como folhas que se desprendem nos outonos
A pele já não tão alva e macia
Desenha sombras e conta histórias
Como areia do tempo na ampulheta
Os olhos trazem mistérios há muito escondidos
Os sulcos na pele agora são como livros de memória
Cada um representa um prêmio
Pelas dores e sofrimento
Ou pelas gargalhadas e alegrias
Mas os olhos...
Os olhos não mudaram com o tempo
Da criança de um dia a mulher madura de agora
A eterna busca, a impaciente espera...
O espelho reflete a casca
Os olhos desnudam a alma.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013


                                                            
A vida vai me levando por encostas ou ruelas
Lugares claros e , às vezes, escuros
As passadas largas nas horas despreocupadas
O caminhar lento no momento de dor e sofrimento
A vida com seus símbolos e significados
Vai me deixando migalhas de pão por onde passo
Com a certeza que se não acerto o passo
Perco o tempo e o compasso da minha história
No lumiar do dia ou sob a abóbada celeste
Vou contanto em versos
O que os olhos printaram na alma
Já não corro apenas caminho
Já não falo, sussurro
Nesse vagar inconstante e incerto
Sou ave que voa livre nas asas do vento
No coração o calor
Na alma conhecimento

sábado, 27 de julho de 2013

"A alegria começa quando somos responsavelmente livres para ser nós mesmos; quando tomamos o leme de nossa vida nas próprias mãos e deixamos de ser escravos de algo ou de alguém... Quando seguramos as rédeas da própria existência,  assenhoreando-nos dela, vivemos tranquilos e felizes e não mais necessitamos impor, comandar e controlar os outros, nem utilizar compulsoriamente a aprovação e os aplausos alheios para decidir ou agir, porquanto estamos firmados em nosso mais profundo senso de identidade...É muito bom vivenciar a alegria de encontrar o tesouro escondido no campo da própria alma... que sustenta, resguarda e inspira o ser humano a progredir de modo natural e sensato." Francisco E S Neto/Hammed

sexta-feira, 26 de julho de 2013

E fui deixando pedaços pelo caminho
Um olhar distraído, perdido na beleza
Um afago no coração aquietado
Vesti-me com a leveza dos sonhos
Compartilhei carinho
Na manhã ensolarada
Ou no entardecer silencioso
Regozijei-me em agradecimento
Descalcei os pés e senti o poder da terra
Mergulhei no espaço esquecida do tempo
Na encruzilhada do caminho
Escolhi o menos gasto
Fechei os olhos da carne
Enxerguei com os olhos da alma
Tão longa a viagem
Tão curto o tempo
Enquanto realidade fui apenas fantasia
Enquanto sonho desabrochei minha verdade
E no despertar do augusto dia
Dei asas a minha liberdade.

E aí vem você, todo dengoso e cheiroso Roça meu pescoço, você é habilidoso Sabe sussurrar em meus ouvidos Palavras que fazem meus pêlos e...