segunda-feira, 23 de setembro de 2013


     
                                   
  Foto: Mauro Marques

O corpo descansa na maciez da sombra
Ora e outra brinca com a luz que
Toca-lhe em pequenos segredos
O olhar apagado e a face sem forma
Revelando o que não se permite
Escondendo o que é um total
Despindo-se da máscara do dia
Na certeza perdida por frestas de luz
Que desenha o imaginário em face do real
Sombra e luz tecem a roupa
Que recobre o corpo e liberta a alma
O corpo despido de vazios
E preenchido de histórias
Tantas vezes transformado em memórias

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

E ela cuidou da dor
como criança ainda no colo
Acariciou, limpou, alimentou
Enquanto adormecida
A dor era quase inexistente
Mas ela soube suportar
Na exasperação de momentos
À quietude morna
E assim quando ela percebeu
A dor havia crescido e partido
E em repouso ela adormeceu
Agora ela estava livre
E poderia, enfim, apropriar-se
Do que realmente era seu

sexta-feira, 30 de agosto de 2013



O incômodo está sempre nas entrelinhas
Nas etecéteras, nas reticências...
Nem sempre cabe uma vírgula,
Nem tudo se resolve com um ponto.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

ALZHEIMER: a dor do esquecimento

                                  (Poema dedicado a minha mãe)

Lembro-me perfeitamente dos tempos de infância
De correr pelas campinas, apartar as vacas
Brincar com meus irmãos, ir aos bailes para namorar
O tempo passado me é o mais presente
Esse presente que são apenas borrões
Sei que fico agressiva, irritada
Repito as mesmas perguntas o tempo todo
Os que estão a minha volta também se irritam
Não sei o que acontece comigo
Esforço-me para lembrar, mas não consigo
Percebo minha fala estranha
Não consigo formular frases, nem as mais banais
Por isso acho melhor ficar calada
Esqueço o chuveiro ligado, mas nem sabia
Que tinha ido ao banheiro
Alguns rostos à minha frente não consigo distinguir
Acho que são meus, mas não me lembro
Dizem que são meus filhos, meu marido
Mas eu não os acho na minha memória
São estranhos que brigam comigo
Meu andar já não é tão fácil como nos tempos de juventude
Será que caí e me machuquei?
Não me lembro
Vejo os dias nascerem e partirem
E vou criando um mundo só meu
Pareço uma estranha diante de tantos estranhos
Só queria que não brigassem comigo
Fico sozinha querendo entender  as coisas
E me disperso com tanta facilidade
Será que estou doente e não me dizem nada
Ontem tentei comer um pãozinho sozinha
Mas as minhas mãos me traíram
Agora elas tremem e evito segurar as coisas
Porque esses estranhos brigam comigo
Passo horas olhando o céu, existe alguém lá
Mas não consigo me lembrar
Hoje eu ganhei um abraço, fiquei tão feliz
Mas não sei quem é a moça
Ela diz que é minha filha
Mas eu não sei se tenho filhos
Fiquei com pena dela, coitada
Ela acha que eu sou a mãe
Vejo-me tão enrugada, acho que estou velha
Mas nem sei que idade tenho
Será que já cheguei aos quarenta?
Perguntei  isso outro dia e um rapaz
Que eu nem conheço me chamou de vó
Achei tão estranho...

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O beijo - Gustav Klimt

Beijo a sua boca e sinto gosto de saudade
Beijo macio e suculento
Como cereja madura
Que explode seus sabores
Nesse encontro de lábios e línguas
Beijo bom...
Beijo que deixa saudade
Mesmo antes que esse toque se acabe...

sábado, 17 de agosto de 2013

Ela está ali novamente, parada
Cabelos soltos e ao vento
Tez serena e olhar distante
Ei menina para onde olha?
Que horizonte é esse que apenas
Seus olhos enxerga?
Que caminhos percorre
E por que não deixa pegadas?
De onde vens e por que não me conta tua história?
Ei menina por que não me olha?
Me deixa ver essa luz que tanto brilha
Ei menina...
E ela apenas caminha, leve e silenciosa
Se distancia ao meu toque
E ali eu fico, parada
Apenas vendo-a partir
No seu silêncio que fala mais que palavras
Será que um dia realmente a vi?
E agora folheando minha memória
Percebo que sempre a conheci
Mas em algum lugar no tempo a perdi
Desembrulho o passado
Ansiosa para encontrar o presente
Aninhados em papel de seda
Vejo dois rostos que se fundem
Eu era a menina, há muito por mim esquecida
E entre exclamações e perguntas
Vislumbro o nada e apenas um sentimento
Em que momento eu a afastei de mim?

sábado, 10 de agosto de 2013


Foto: Mauro Marques


O espelho reflete os traços de um rosto
Que aos poucos vai desenhando-se
Olhar miúdo,  brilhante, triste?!
A pele lisa, cremosa como polpa de pêssego fresco
Nos lábios um leve sorriso, tímido, impreciso
O estalar do tempo pincela a carne
O olhar miúdo,  novos traços,  marcas
O sorriso ora malicioso, ora carinhoso
É mistério nessa boca que não fala
Tal como folhas que se desprendem nos outonos
A pele já não tão alva e macia
Desenha sombras e conta histórias
Como areia do tempo na ampulheta
Os olhos trazem mistérios há muito escondidos
Os sulcos na pele agora são como livros de memória
Cada um representa um prêmio
Pelas dores e sofrimento
Ou pelas gargalhadas e alegrias
Mas os olhos...
Os olhos não mudaram com o tempo
Da criança de um dia a mulher madura de agora
A eterna busca, a impaciente espera...
O espelho reflete a casca
Os olhos desnudam a alma.


E aí vem você, todo dengoso e cheiroso Roça meu pescoço, você é habilidoso Sabe sussurrar em meus ouvidos Palavras que fazem meus pêlos e...