quinta-feira, 29 de junho de 2017



Por dias e horas vou me afundando no delírio
Esmago em mim o desejo alucinado
É parte desse corpo essa forma que não deforma
Custou-me o entendimento
Dói dor doida da realidade
Antes fantasia e falsa alegria
Hoje tristeza marca da ausência
Coração que partido não retorna
Sangra como rio que vai para o mar
Não é paixão, fogo desejo de amar
Tão pouco amor que ensina suportar
Não há nesse corpo razão
Fragmentado espalha se pelo ar
Sai de dentro para melhor enxergar
E não há nada que se possa olhar
Dói dor doida do desejo de amar

domingo, 2 de abril de 2017

Sempre andei pela periferia dos sentimentos
Não me aportando em nada ou ninguém
Dei azar de ancorar em um espaço disforme
Quase sucumbi em meio a tantas fantasias
Chorei rios por dias, alaguei meus espaços vazios
Martirizei o corpo querendo sufocar a dor
Iludi dia e noite chamando de amor
Passei dias, meses e anos nessa prisão
Alimentando-me do que jurava paixão
Já em frangalhos, arrastando os trapos da solidão
Senti um sopro leve que vinha de longe
Uma brisa suave chamada razão
Num último suspiro de força
Dei o salto para minha libertação
Quebrei a corrente, soltei as amarras
Sem olhar para trás flanei
E a escuridão para sempre deixei




E fui te inventando por que era preciso
Não me sabia quem  era
Mas conhecia as minhas dores
Ora alucinadas ora despidas de sentido
E fui te criando como especial
Era meu refúgio lugar de abrigo
Sorria o sorriso de quem não entende
Que real é estar sempre presente
E amanhecia coberta de esperança
Desconhecia ser pura expectativa
Algo fantasiado nas entranhas
Fugas do monstro assolador
E fui te inventando
Iludida acreditava estar amando
Era um desejo de ser outra não eu
Não era o reflexo o meu desejo
Estranha não me reconhecia
E fui te inventando
Era a única forma de ser lúcida
De repente fumaça
Desvanecendo no tempo
O que era passível de verdade
Restam apenas fragmentos embaçados
Aos poucos caem no esquecimento
Mas te inventei porque era preciso
De amor andei  falando
Foi nesse refúgio que acabei me encontrado

domingo, 19 de março de 2017


Metamorfose de Narciso - Salvador Dali - 1937

Vago em mim no abismo absoluto
Há uma confusão latejante
Na busca de respostas
De perguntas sem sentido
Pura imaginação
Fantasias que distorcem a realidade
Machucando um corpo
Que se contorce inundado de dor
Qual entardecer me confundo
No crepúsculo querendo anoitecer
Misturo emoções sofrimento euforia
Ora choro pungente ora histérica alegria
Alma que sofre numa busca infinita
Envelhecendo nesse corpo
Que arde noite e dia
A pele pálida o coração em brasa
E de novo amalgamada... Aprisionada...

quinta-feira, 16 de março de 2017

Meu telefone morreu há alguns dias, sem nenhuma chance de recuperação. Trabalhou arduamente, mas a  obsolescência programada não perdoa, e quando você tenta viabilizar algum conserto para evitar gastos maiores, descobre que o valor do conserto é quase o mesmo de um aparelho novo. Com o feriadão de carnaval me dei o direito de esperar para adquirir outro telefone. Como não viajo nesse feriado e gosto do sossego da minha casa, me vi quase distante da tecnologia o que foi interessante. Quase porque precisava receber algumas informações importantes e o único meio era o e-mail, que hoje em dia quase ninguém gosta de usar, ou pelos chats de bate papo Messenger ou Hangouts. Descobri que o Instagram tem chat de bate papo nunca percebi a existência desse recurso, se não é um amigo me chamar ficaria na ignorância (rs).
O mais interessante é saber o quanto ficamos a mercê dessas tecnologias. Uma amiga veio em casa, quase enlouquecida, querendo saber quando iria comprar outro aparelho, que ela tinha dois e ia me emprestar um até eu efetuar a compra, porque era IMPOSSÍVEL eu ficar sem telefone, como ela ia falar comigo, e se ela tivesse uma crise existencial e precisasse conversar, a quem ela iria recorrer. A fiz sentar, se acalmar e perceber que estávamos ali, juntas, olhos nos olhos, conversando, e que o telefone havia perdido todo o sentido, ela me abraçou e disse "amiga eu te odeio" (rs).
Precisei falar com um professor e descobri que o número do telefone dele estava nos contatos do meu telefone morto e que não havia me dado ao trabalho de fazer um backup dos meus contatos. Não sei de cor o número do telefone de ninguém, nem da minha melhor amiga, que nos falamos todos os dias, duas vezes por dia. Um erro que preciso corrigir.
Ouvimos as pessoas pelo áudio ou vídeo do WhatsApp, nunca temos tempo de estar ao vivo com alguém, porque arrumamos tantas coisas para fazer que esquecemos como é bom sentar, tomar um café, cerveja ou vinho e bater papo. Nos tornamos meros participes de coisa nenhuma. Uma troca de mensagem, um compartilhamento de algo engraçado, ou até sério. Nos escondemos atrás dessas maquininhas e nos poupamos de vivenciar tristezas, amarguras, problemas. Evitamos o óbvio porque achamos que assim estamos a salvo de nos magoar. Criamos diálogos gigantescos quando não recebemos respostas de uma msn enviada, porque se quer paramos para pensar que do outro lado existe um ser humano com seus problemas, tempo apertado, desejos outros e que se não responde é porque não quer ou tem outras coisas para pensar, simples assim. E fantasiamos porque, embora escondidos, queremos ser notados.
Mesmo tendo avisado que não tinha telefone, recebi reclamações e cobranças, fui julgada e criticada, de fria e hipócrita a outras besteiras do gênero. Nem sabia que era tão necessária assim, e não sou.
Contudo, mesmo quebrando a cabeça para tentar localizar algumas pessoas, percebi que o telefone, instrumento útil para as horas necessárias, não me fez a menor falta.
Enquanto concluo esse texto posso dizer que já tenho outro aparelho, vai levar um tempinho até conseguir resgatar os meus contatos, mas tem alguns que nem sei se vale a pena trazer de volta à vida...



terça-feira, 14 de março de 2017

Sofro de amor antigo e nesse caso
Não por acaso, recorro a um sábio
Que de amor tudo sabia

"Ao Amor Antigo
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor"
                 [CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE]


quarta-feira, 8 de março de 2017





Expansión: escultura da america Paige Bradley


O feminino que se vê castrado
Não se limita, pois não há nada a perder
Se permite brincar
Seu gozo é real
É alívio ao seu desamparo
Enquanto finge ser falo do homem
Este finge ser o que lhe vai dar
A mulher que sabe brincar
Com o objeto de desejo do outro
Tem consciência do seu feminino
Não se identifica com a fantasia
Verbalizada daquele que lhe deseja
Mas a vive com intensidade
Sem deixar que lhe roubem a sanidade
E goza o gozo absoluto
Esvaindo-se no mel
Do ato, por fim, resoluto...






E aí vem você, todo dengoso e cheiroso Roça meu pescoço, você é habilidoso Sabe sussurrar em meus ouvidos Palavras que fazem meus pêlos e...