terça-feira, 9 de agosto de 2011

Autoretrato


O papel vai revelando
O que nem sequer sabia existir
Os pontos vão se multiplicando
E em segundos uma imagem revelando
Os traços iniciais quase disformes
Tomam forma de um corpo
Que eu não conheço
Ele parece ser tão antigo
Que quase não o reconheço
Mas ele me pertence
Maltratado, amargurado... Um trapo
A luz revela a alma
Por isso não reconheço o corpo
Os olhos não têm o brilho de ontem
Os lábios não se abrem em um sorriso
De lado essa massa de pele e ossos
Curva-se rumo ao chão
O preto toma conta dessa escuridão
Na foto revelada apenas uma
Alma cansada da espera
E da angústia do desencontro
Esse autoretrato revela apenas
Uma alma esquecida
Do que um dia esperou da vida.






quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O recomeço é sempre muito difícil
Sinto-me como a uma lagarta
Vou rastejando entre galhos e folhas
Começo a preparar meu casulo
Nesse tempo que ignoro a passagem
Sobrará apenas a necessidade de me recriar
Encolho-me quase a um feto
Debruçada por sobre meus delírios
De um sofrimento que jamais
Imaginei sentir e nunca desejei viver
Agarrada a uma fina linha de sustentação
Consigo ver apenas uma sombra
O consolo vem de sons que ao longe
Repercutem o que nunca quis ouvir
Vou regurgitando e remoendo
Os restos do que sobrou
Ainda é um escuro que padece de solidão
Mas apiedada de mim
Virá uma luz que mesmo exígua
Poderá salvar minha alma
Já sinto meu casulo se fechando
Já sinto meu corpo se reconstruindo
Levará o tempo necessário para se curar
Nessa viagem sem volta
Permitirei-me apenas esperar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A dor da alma é a pior dor que existe
É como uma navalha que dilacera a carne
Rasga cada pedaço de pele e deixa a mostra
O mais profundo sofrimento
A angústia que acompanha essa dor
Sufoca e não há ar que alivia o desespero
De buscar e não conseguir respirar
Faltam forças para me locomover
O chão desaparece e tudo fica solto no espaço
A vontade é de soltar o grito que ecoa por dentro
Mas por mais que você grite não existe voz
Não existe som é um vazio absoluto
O escuro toma conta de tudo e a luz desaparece
A dor da alma acaba com todas as reservas de energia
Que te auxiliam no exaustivo exercício de caminhar
Caminhar para nenhum lugar
Sinto-me como um saco vazio abandonado ao chão
Tudo foi retirado e vomitado
Estou seca como uma árvore no fim do verão
Que busca nas profundezas água para
Quem sabe libertar-me da solidão
Mas é sal que encontro e abre ainda mais as feridas
A dor maltrata como vilã de um filme de terror
Onde vivo a protagonista dos erros que eu mesma
Infligi-me onde maltratei os fantasmas de outrora
Na ingenuidade de pensá-los esquecidos e adormecidos
Mas não existe esquecimento no brotar da aurora
Todos os vestígios do dia de ontem se acumulam
E se regeneram agora como monstro travestido de dor
Que me devora quebrando todos os ossos
Não sobrou nada apenas um espectro
Que o tempo poderá varrer como poeira
Ou terá piedade e transmutará em outro ser.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Hoje ouvi a tua voz

Do nascer ao por do sol

Seu belo rosto acompanhou todo meu dia

Era seu sorriso que via em cada bom dia

As canções do rádio eram todas você

E era você quem me presenteava

Em cada olhar que passava

Dirigia lentamente querendo eliminar o tempo

Como se fosse possível congelar o momento

Aconchego-me agora ao macio travesseiro

Novamente sua voz vem me acalentar

Percebo sem qualquer risco de desespero

Que foi por tua alma que me deixei apaixonar

É essa alma que me acalma, me faz mulher

É essa mulher que não lamenta a tua ausência

Tão pouco pede a tua presença

Minha alma ama a tua

E esse amor já tomou conta de mim

Ele está além de tudo que consigo

Imaginar, desejar, esperar...

Meu amor é só meu e irá

Comigo aonde quer que eu vá.

O dia se despede da noite

No balanço suave da melodia no ar

Ponho-me a sonhar

É no sonho que todas as noites

Me liberto para te encontrar.
Para Dilvana...

Contemplar teu rosto
É como abrir a janela
E receber o beijo do sol
Ouvir tua voz é como
Se encantar com o rouxinol
Você é luz que ilumina
Tudo por onde passa
Teu riso solto e despreocupado
Faz-nos sentir agraciados
Sentimo-nos abençoados
Pelo prazer de estar ao teu lado
Moça bonita de riso fácil
Encantadora como flor rara
Perto de você o tempo para
Sejas sempre assim
No corpo de mulher o olhar de menina
A estrela que brilha cintila
Vestida de sonho e esperança
Você não para, não descansa
E mesmo que o sal salgue teu belo rosto
Haverá teu riso franco e teu coração aberto
E quando a luz da lua encher a noite
Que adormecerá nos braços do tempo
Você será o sopro doce da relva amanhecida
O mais belo acorde da música mais linda
Você não é Ana
É Dilvana sinônimo de amor que AMA...
Calaram-me sem nem sequer me ouvir

Botaram em minha boca palavras

Que nunca compreendi

Lavaram-me com um líquido

A princípio límpido

Mas aos poucos percebi

Que ao me lavar apagaram-me também

Sou jogado em um terreno que desconheço

Sou ameaçado, banalizado, ridicularizado

Taparam minha boca e não consigo verbalizar

Grito para dentro de mim

Como quem busca se libertar

Os arranhásseis me circundam, amedrontam

Torno-me pequeno como um inseto

Sem voz nem vez

Sigo cabisbaixo

Vou de encontro ao que acredito

Pois venderem minha esperança

Compraram meus direitos

Minha palavra não tem forma

Está vazia de significado

Tiraram de mim o direito de me expressar

Vivo nesse amontoado de nadas

Sou alimentado com o vazio

Mas me escondo atrás de palavras

Fantasiadas e pouco compreendidas

Enquanto por fora me castigam com

Inexpressivas formas de pensar

Por dentro vou me completando

Preenchendo espaços e aos poucos

Em pequenos gestos, vou me libertando.
Olho as sombras que se propagam na parede

Vejo vultos disformes e os interpreto

Não aquilo que é real, mas apenas o que imagino

Vou tecendo uma teia de imprecações

Não há preocupação com tais interpretações

Crio um pensamento para cada sombra

Alimento com minha imaginação

Aquilo que acredito ser

As sombras transformam-se em monstros

Que devoram sem piedade.

Nesse estado de claustro

Acredito apenas naquilo que alimento

É essa liberdade de pensamento

Que ora me mostra a realidade

Ora destrói minha felicidade

Sou livre para pensar e acreditar

Naquilo que vejo como verdade

Também sou livre para receber

E aceitar sem questionar

O que advém de minha irresponsabilidade

O pensamento é livre

Sua interpretação também

Mas quando ele adquire forma

Através de palavras pouco cuidadas

Ele pode ser vil e ameaçador

Doce e acalentador

Enquanto pensamento está preso

Materializado em palavras, perigoso.

E aí vem você, todo dengoso e cheiroso Roça meu pescoço, você é habilidoso Sabe sussurrar em meus ouvidos Palavras que fazem meus pêlos e...