domingo, 15 de novembro de 2015





Depois de horas sobre livros, artigos e anais
Dei-me  o direito de um pouco de leveza
Fui zapear  pelas ondas e me perdi
Entre a tristeza e o horror
Entre a angustia e o sofrimento
Lamentei cada episódio
Da guerra sem fim de povos
Que não se entendem e nada entendem
Sobre o sentido da vida
Sobre o sentido da palavra amor
Deixada por aqueles que jamais
Falaram em guerra
Até a morte da alma natureza
Da morte de pessoas simples
Com seus dias simples
Com suas histórias simples
Morre uma história
Vitimada pela ganância e poder
Ver lágrimas na voz embargada
Dos amigos de lá, dos amigos de cá
Saber que percorri pelas duas ruas
Que senti os cheiros, os risos
A alma leve de cada lugar
Doi me profundamente
Lá e cá perdas irreparáveis
E a certeza de que não somos nada
Que cada dia é único
Que se o perdemos
Perdemos a chance de um viver melhor
Que haja luz para essas almas sofridas
Que sejamos mais humanos
Que a vida seja nossa principal riqueza

domingo, 11 de outubro de 2015

Autonomia (Wislawa Szymborska)

"Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca."
(Tradução coletiva - inimigo rumor)


(Holotúria - pepino do mar)

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Raiva...
Emoção latente, aprisionada
Fica ali, engasgada
Fere a garganta
Machuca a voz
Que sai entrecortada
Revirada
Luta uma luta insana
Quer sair, se exprimir
Mas só consegue se reprimir
O rosto se transforma
O corpo contorce, retorce
Grita de dor
Um grito contido, mudo
Uma marionete deixando-se manipular
Os lábios trancam, há muito a falar
O silêncio é mais forte
Um silêncio de sofrimento
Carrega o peso das vidas
Vividas sem cor
Ausentes, displicentes
Raiva...
A alma esbraveja
Quer sair, se desnudar
Limpar-se da agonia
Que a impregna
Mas é só silêncio
Contido, duro
E o grito emudece outra vez
E o corpo queda-se inerte



Uma coisa eu tenho que dizer
Não há outro igual a você
Ninguém até hoje
Bagunçou minha vida assim
Desarruma tudo, deixa uma confusão
E saí de fininho como se não tivesse intenção
Me deixa largada, desamparada
Recolhendo os pedaços no chão
Não olha para trás, e eu fico vagando
Não sei se te enfrento ou sigo te amando
Não decifro seu sorriso, ou seu olhar angustiado
Você é uma mistura, uma pintura abstrata
Pincelada em tons diversos
Tem ranhuras, mas não me permiti tocá-las
O destino nos propôs um reencontro
O mais inútil ou intenso de todos,
Mas você não me deixa chegar perto
Não sei se choro, se sofro
Ou se dou muita risada
Histeria ou mero desabafo
Não estamos juntos, o que é um alívio
De tão diferentes somos iguais
Te sinto até quando não o percebo
E é nessa ilusão realista
Fábula de poetisa
Que sinto em todos os meus poros
Amor que não pede troca
Você é essa estrela distante
Fonte de meus devaneios constantes












quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Esse corpo é meu



Foto: facebook
"todas as mãos que querem calar uma mulher são sujas" Mirna Tonus


Esse corpo é meu
Me foi dado como presente
Ele protege minha alma
Das tormentas diárias
Esse corpo é meu
E eu cuido dele
O afago com carinho
O respeito
E o mantenho aquecido
O protejo da ignorância
Do preconceito 
Do machismo que impera
Que insiste em mandar
Que se acha no direito de molestar
Esse corpo é meu
A ele dou o destino que quiser
A ele só se aproxima
Quem eu permitir
Tocá-lo é para pouquíssimos
Se nu ou vestido
Esse corpo é meu

domingo, 20 de setembro de 2015


                                                                    Foto: Mauro Marques


Hoje perguntaram a minha idade, não sei se pelas marcas finas que adornam meu rosto, ou se pela moleca que gargalhava sem o menor receio do que os outros pensavam.
Houve um tempo em que eu dava muita importância a opiniões alheias, que sofria por ver minhas ilusões desmanchando-se no ar. Minha ansiedade e expectativas ditavam meu caminhar e, é claro, o resultado era sempre frustração. O amadurecimento lhe traz uma certeza, viver com paz na alma e no coração, manter sua luz sempre acesa e acima de tudo acreditar em você mesma, no amor que conduz sua vida. O que os outros pensam a seu respeito é problema deles, o que importa é semear amor aonde quer que vá e desejar que esse mesmo amor seja sempre o sol, a luz que dá o verdadeiro sentido à sua vida e a sua forma de ser.
Com toda certeza não é um número que define a minha vida ou quem eu devo ser. Já basta esse mundinho cheio de regras e convenções sociais que somos obrigados a lidar cotidianamente.
Veio-me a mente o trecho de um texto maravilhoso de Saramago, e que a cada dia torna-se um mantra na minha vida.

"Quantos anos tenho?
Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.
Tenho os anos em que os sonhos começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança.
Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama intensa, ansiosa por consumir-se no fogo de uma paixão desejada. E outras vezes é uma ressaca de paz, como o entardecer em uma praia.
[...]
O que importa se faço vinte, quarenta ou sessenta?!
O que importa é a idade que sinto. Tenho os anos que necessito para viver livre e sem medos. Para seguir sem temor pela trilha, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.
Quantos anos tenho? Isso a quem importa? Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e o que sinto..." [José Saramago]

E aí vem você, todo dengoso e cheiroso Roça meu pescoço, você é habilidoso Sabe sussurrar em meus ouvidos Palavras que fazem meus pêlos e...