domingo, 20 de setembro de 2015


                                                                    Foto: Mauro Marques


Hoje perguntaram a minha idade, não sei se pelas marcas finas que adornam meu rosto, ou se pela moleca que gargalhava sem o menor receio do que os outros pensavam.
Houve um tempo em que eu dava muita importância a opiniões alheias, que sofria por ver minhas ilusões desmanchando-se no ar. Minha ansiedade e expectativas ditavam meu caminhar e, é claro, o resultado era sempre frustração. O amadurecimento lhe traz uma certeza, viver com paz na alma e no coração, manter sua luz sempre acesa e acima de tudo acreditar em você mesma, no amor que conduz sua vida. O que os outros pensam a seu respeito é problema deles, o que importa é semear amor aonde quer que vá e desejar que esse mesmo amor seja sempre o sol, a luz que dá o verdadeiro sentido à sua vida e a sua forma de ser.
Com toda certeza não é um número que define a minha vida ou quem eu devo ser. Já basta esse mundinho cheio de regras e convenções sociais que somos obrigados a lidar cotidianamente.
Veio-me a mente o trecho de um texto maravilhoso de Saramago, e que a cada dia torna-se um mantra na minha vida.

"Quantos anos tenho?
Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.
Tenho os anos em que os sonhos começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança.
Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama intensa, ansiosa por consumir-se no fogo de uma paixão desejada. E outras vezes é uma ressaca de paz, como o entardecer em uma praia.
[...]
O que importa se faço vinte, quarenta ou sessenta?!
O que importa é a idade que sinto. Tenho os anos que necessito para viver livre e sem medos. Para seguir sem temor pela trilha, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.
Quantos anos tenho? Isso a quem importa? Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e o que sinto..." [José Saramago]

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Foto: Mauro Marques
Um tic tac ao longe lembra que o tempo passa
Lento, constante e ritmado
No abrigo da noite, na companhia
Do copo, da pena, do papel
Devaneio na madrugada
O gosto amargo é doce no final
Me consola como beijo
Deixado na espera da noite passada
Lamentos de horas vãs
Transcritos em versos desconexos
Palavras que dançam à minha frente
Como bailarinas desprovidas de rima
Criaturas noturnas despertam
E se deixam comigo compartilhar
Risos soltos, afagos e sentidos
Noite alta, estou absorvida pela magia da escrita
Alma alerta, desprendida
Um sorriso me vem e sorrio de volta
Nessas voltas um encontro
                              [entre tantos desencontros...]
Sentimentos enevoados
Deixados ao lado, cobertos, recobertos
Último gole... Dourado
Bolhas de sabor explodem na boca
Anúncio de finitude
De tempo necessário...



Foto: Arkadiusz Branicki


Esse corpo é só um corpo
Nada nele reflete o que vai na alma
Ele é duro, frio, vazio
O sorriso não demonstra nada
E o que brilha nos olhos
É tao somente luz qualquer
Esse corpo já não desperta sentido
Esse corpo já não faz mais sentido
É só um corpo esvaído
Um corpo que quando nu 
Não mostra a verdadeira nudez
Apenas os restos que se permite ver
Não há pudor nesse corpo nulo
Não é belo, não é feio, não é nada
Apenas um corpo
Carregado de dor e sofrimento
Que se arrasta comendo o tempo

Romper
        Permanência do ser
Distorção sentimento corpo
                                         corpo
Ilusão fantasia escuridão
Ausência que se faz luz
                                     luz
Nudez de pele de carne
Pudor de vestes reforço
                          esforço
Na tua minha imagem
Desenho que se funde
                          Finge
Já não sou o que ontem fui
Mas flui
Perturba castiga aflige
Imaterial intocável
                    Inefável

Momento de profundo vazio_salvador/BA


Como bem descreveu Aristófanes
Vagamos no mundo
Nessa busca constante
Da parte que nos foi extirpada
Essa dor que sentimos
Essa ausência que não se nomeia
Esse conflito que castiga
Que não dá absolvição
Essa sensação solitária
Como gozo sexual
Que é sempre do próprio gozo
                            [Que se goza]
E que ao final desse prazer ilusório
Do esvaziamento
                    [rompimento]
Voltamos a solidão desse corpo
Retornamos a esse vazio
Ao caminho de pedra
Obstáculo ou mera escusa
Vaguear ilusório do obstante amar
                                      A...
                                          Mar...




E... Se...
E se eu juntasse tudo
E de repente fizesse sentido
E se eu me permitisse
Acreditar um minuto que fosse
No que a mim se apresenta
E se a realidade não fosse tão crua
E se o meu olhar não fosse tão crítico
E se eu esquecesse o ontem
E se eu não pensasse no amanhã
E se eu olhasse com carinho o hoje
E se cada segundo fosse o último
E... se...
E se eu não tivesse permitido tanto
E se eu não tivesse aceitado tanto
E se eu não tivesse lutado tanto
E se eu tivesse desistido cedo
E se eu fosse outra e não eu
E... Se...
                           E [sozinho não é nada]
                          Se [apenas conjunção]
E se... juntos pressuposto
Se não é poderia ter sido
Ma o se será sempre interposto



E aí vem você, todo dengoso e cheiroso Roça meu pescoço, você é habilidoso Sabe sussurrar em meus ouvidos Palavras que fazem meus pêlos e...